Introdução:
Como o funcionamento do organismo é o resultado de processos físicos e químicos que são sensíveis às alterações da
temperatura, os animais usam uma variedade de estratégias para regular a temperatura de seus tecidos. Se a
temperatura corporal cair a um nível muito baixo, os processos metabólicos ficam tão lentos que chega um momento em
que cessa o funcionamento do organismo. Por outro lado, um aumento da temperatura acima dos valores normais, de
38ºC para 45ºC, pode ocorrer uma desnaturação das proteínas, o que também é fatal. Para regular a temperatura
corporal, o animal dispõe de uma variedade de sensores de temperatura em vários locais dentro do corpo. Estes
sensores enviam informações para o cérebro, que aciona, então, os mecanismos para aumentar ou diminuir perda ou
diminuição de calor. Existem receptores cutâneos sensíveis ao calor e eles podem iniciar os processos de perda de calor,
quando a temperatura da pele aumenta. Também existem neurônios termossensíveis em vários locais, nas vísceras. A
ingestão de grandes volumes de líquidos frios pode estimular receptores sensíveis ao frio no sistema gastrointestinal, que
deflagram mecanismos de conservação de calor corporal. Quando um homeotermo é exposto a um estresse pelo calor, a
resposta inicial é vasodilatação, que aumenta o fluxo sangüíneo na pele e nos membros. Se a vasodilatação apenas é
insuficiente para manter a temperatura normal, aumenta-se o resfriamento por evaporação, através da sudorese, da
respiração ofegante, ou de ambos, levando a uma desidratação e ao colapso circulatório.
Diagnóstico:
Freqüentemente é uma história de exposição ao calor excessivo. A duração da exposição é variável, dependendo das
condições ambientais e da condição física do animal antes da exposição ao calor. Hipertermia pode ocorrer devido a um
aumento da taxa metabólica, como a de esforço ou hipertermia maligna, como pode ocorrer secundária a outras doenças e
devido à anestesia com halotano. Também pode ocorrer em pacientes com depressão respiratória ou obstrução das vias
respiratórias, cardíacas, ou doença pulmonar, ou em condições em que não ocorre a diminuição do calor excessivo, como a
gordura corporal excessiva ou umidade do ambiente. Cães braquicefálicos, como os Bulldogs, podem ter predisposição.
Obesidade, doenças cardiorespiratórias, incluindo paralisia de laringe e idade avançada são alguns fatores
predisponentes. Proprietários observam respiração excessiva, hipersalivação, tremores musculares, vômitos, diarréia,
ataxia, perda de consciência e convulsões. Hipertermia também ocorre em gatos que foram acidentalmente fechados
dentro de uma secadora de roupas em funcionamento (comum nos EUA).
Exame físico:
Temperatura elevada (40,5ºC), mucosas congestas, respiração excessiva, taquicardia, Se houver coagulopatia
intravascular disseminada, petéquias, hemoptise, hematemese, e hematoquezia podem ser observados. Com a piora
da condição do paciente, mucosas cinzas, pulso fraco, vômitos, diarréia, depressão, convulsões, coma e morte podem
ocorrer.
Avaliação Laboratorial:
Deve-se avaliar: hemograma, glicemia, sódio, potássio, gasometria, contagem de plaquetas, perfil bioquímico, coagulação
e urinálise. Eletrocardiograma deve ser feito a cada hora, pois arritmias ventriculares são comuns.
Diagnóstico Diferencial:
Hipertermia maligna, intoxicação por estricnina, convulsões por outras etiologias, meningite, encefalite, desordens
infecciosas ou inflamatórias e lesões no espaço termorregulatório do hipotálamo.
Prognóstico:
Não é favorável. Geralmente os pacientes morrem nas primeiras 24 horas. Há um estudo mostrando que 64% dos
pacientes sobrevivem.
Tratamento: Aconselhar, por telefone, ao proprietário que jogue spray de água fria no seu animal e o traga
imediatamente até a clínica para avaliação. Não pode ser aplicada água com gelo ou um resfriamento muito rápido, pois
pode trazer complicações como, por exemplo, coagulação intravascular disseminada.Quando o paciente chegar, iniciar
imediatamente a administração de oxigênio independente do seu estado mental. Coloque um cateter nasal com oxigênio ou colar Elisabetano fechado para oxigenação. Tenha cuidado com gaiolas de oxigênio, elas tendem a ficar
quente e piorar a condição do paciente.Informe ao proprietário sobre o diagnóstico, prognóstico e custo do
tratamento.Coloque um cateter intravenosoFazer os seguintes exames: Hemograma completo, uréia, glicose sanguínea,
gases sanguíneos, urinálise, tempo de coagulação (normal no cão 60 – 110 s e no gato 50 - 75 s)Administrar
fluidoterapia intravenosa em dose de choque (cão 60 - 90 ml/kg/h e no gato 45 - 60 ml/kg/h)Se o paciente estiver com
pulso rápido, taquicardia, taquipnéia, administrar Dextran 70, 14 - 20 ml/kg IV, exceto se o paciente tiver com
petéquias e hemorragia.Lavar o corpo do paciente com água fria, mas com cautela pois um resfriamento rápido pode
levar a coagulação intravascular disseminada (CID). A temperatura corporal deve ser reduzida gradualmente. Oxigênio e
fluidoterapia devem ser iniciados antes da lavagem do corpo com água fria.Monitorar a temperatura corporal até
chegar a 39,5ºC.Administrar dexametasona 2 – 4 mg/kg IV para choque e edema cerebral.Evite administrar
antiinflamatórios não esteroidais para não causar lesão renal e gástrica.Administre ranitidina ou cimetidina em pacientes
que possam ter ulceração gástrica.Administre diazepam se for necessário controlar convulsões.Administre antibiótico
sistêmico, como ampicilina ou cefazolina e enrofloxacina em pacientes com sinais de choque séptico.Administre
glicose em pacientes com hipoglicemia.Repita o ECG e monitore arritmias.Monitore a urina. Administre furosemida ou
manitol se for necessário após a hidratação.Monitore edema pulmonar.Há controvérsias sobre o uso de heparina mas
seu uso pode ser considerado em pacientes com severa hipertermia pois CID é uma seqüela comum.Monitorar tempo de
coagulação.Se ocorrer CID interrompa a administração de Dextran 70. Administre plasma fresco congelado 5 – 20
ml/kg IV e continue com heparina em injeções subcutâneas
Artigo traduzido e adaptado pela acadêmica Juliana Farber Metzler durante seu período de estágio no Hospital
Veterinário São Bernardo / Instituto de Oftalmologia Veterinária de Curitiba (IOVC) em Janeiro, Fevereiro de 2008.
Referências:
PLUNKETT SJ. Emergency Procedures for the Small Animal Veterinarian. 2a Ed. London: WB Saunders Co, 2001; 74-
76. CUNNINGHAM, James G. Tratado de Fisiologia Veterinária, 3ª Ed. Guanabara Koogan: Rio de Janeiro/RJ. 2004.
pg. 551, 556-557.
Gentilmente cedido por Dr. João Alfredo Kleiner DVM, MSc.
CRMV-PR 3929

